De: Maria Elisabete Magalhães
Para: Sandra Angeline
Olá amiga! ... Quis o acaso que você fosse a destinatária desta carta, o que me deixou bastante feliz pois você faz parte desta caminhada que vou tentar descrever em poucas linhas, destacando apenas episódios significativos sobre o meu ingresso e experiências na Educação de Surdos.
Os primeiros passos foram na direção do trabalho em educação: sou formada em Matemática e Engenharia Civil – apesar de que as duas formações tenham várias disciplinas em comum a área de atuação é bastante diferente. Tive a oportunidade de experimentar as duas profissões e acabei optando pela sala de aula onde as relações estabelecidas vão além das relações de trabalho, o afeto é permanente e o processo ensino e aprendizagem é uma “estrada de duas vias” – ensinamos e aprendemos na mesma proporção!
Ainda na universidade, tive o meu primeiro contato com crianças surdas – ao lado da casa de uma tia morava um casal que tinha três meninas e duas delas eram surdas. Seguidamente as encontrava brincando com meus priminhos que eram da mesma idade (quatro e seis anos); à primeira vista me pareceu que a linguagem do brincar é universal e que não havia problemas de comunicação entre as crianças surdas e ouvintes. Mas chamava a minha atenção a comunicação entre as irmãs que se dava pelo movimento das mãozinhas que graciosamente agitavam-se no ar. Os rostinhos eram bastante expressivos e os movimentos das mãos eram rápidos – naquela época só os movimentos me encantavam, pois não tinha a menor idéia do que aquelas pequenas mãos comunicavam. Tive também a oportunidade de conhecer a mãe das meninas que também se comunicava com elas através do movimento das mãos.
Depois de formada, já casada e mãe de duas meninas fui morar em Portugal – meu marido era português e queríamos que nossas filhas tivessem contato com a família paterna e com a cultura desse belo País ( que também é a terra dos meus pais). Em Portugal, tive o meu segundo contato com surdos – neste caso, crianças e adultos. Meu marido tinha um café na cidade central do Porto, próximo às universidades. Nossas filhas estudavam em uma escola pública e no entorno dessa escola localizavam-se duas outras escolas: uma de cegos e outra de surdos. Semanalmente as crianças surdas e cegas, acompanhadas de seus monitores, participavam das atividades da escola onde as minhas filhas estudavam – já havia aí um movimento da inclusão em Portugal; mas naquela época eu não fazia a menor idéia de como essas crianças eram atendidas em suas escolas e como seriam as atividades propostas pela escola de crianças ouvintes ao receberem crianças cegas e crianças surdas para atividades, imagino eu, integradoras. Continuava lembrando das crianças que moravam ao lado da casa da minha tia e da idéia de que “o brincar é uma linguagem universal”.
Também freqüentava o café do meu marido um casal de surdos – ele jornalista e ela arquiteta – que tinha uma filhinha ouvinte de três anos. Quando conversavam conosco – acabamos ficando amigos – o casal oralizava perfeitamente; quando falavam com sua filhinha ou com os amigos surdos, que também frequentavam o café, usavam o movimento das mãos.
Passados cinco anos, após nossa ida a Portugal, retornamos para o Brasil. Num encontro de amigas de faculdade, recebi um convite para trabalhar numa escola de surdos. Não pensei na dificuldade da comunicação, pois as minhas duas experiências foram muito tranquilas nesse aspecto – as crianças tinham “no brincar uma linguagem universal” e os surdos adultos oralizavam perfeitamente!
Nessa Escola nos conhecemos e também reencontrei a mãe das meninas surdas que moravam ao lado da casa da minha tia - a menina mais nova, viria a ser minha aluna... este mundo é mesmo muito pequeno!
Nessa Escola Especial comecei as minhas primeiras lições sobre a educação de surdos... e foi muito difícil quebrar as minhas concepções iniciais de que “o brincar é uma linguagem universal” e que “todo surdo adulto oraliza”... e que aqueles movimentos de mãos é uma língua – a Língua Brasileira de Sinais. Não é apenas um alfabeto manual: é um conjunto de sinais que transmitem conhecimento, informações e sentimentos... é uma forma de comunicação que viabiliza o processo de ensino e aprendizagem de crianças e jovens surdos... é uma língua. Não bastou apenas me apropriar dessa língua (processo lento e gradativo que exigiu contato direto com o surdo), foi também preciso mergulhar nessa cultura, reconstruir meu fazer pedagógico, conhecer a história de vida dos alunos e de suas famílias,... e foi crescendo o desejo de saber mais, de pesquisar, de trocar experiências...!
Os cursos foram importantes como embasamento teórico, mas a prática da sala de aula, o contato com os alunos e com os profissionais surdos foram fundamentais para a minha caminhada na Educação de Surdos.
Passados três anos, mudei de escola e senti nessa mudança um recomeçar – a nova escola estava implantando as séries finais do Ensino fundamental e havia muito trabalho a ser feito, principalmente em relação ao currículo. Nesse momento pude colaborar com as propostas de discussões curriculares por área de conhecimento para as séries finais; num segundo momento, ampliamos essa discussão para as séries iniciais e Educação Infantil; organizamos oficinas para trocas de experiências em relação às metodologias de ensino; reavaliamos e alteramos o documento de avaliação (relatório descritivo); organizamos o V Encontro das Escolas de Surdos, voltado para o momento que a escola estava vivendo de discussão e construção do currículo e de novas metodologias de ensino... Todo esse trabalho, e tantos outros que foram sendo realizados ao longo dos anos em que estou nessa escola, me trouxeram novas possibilidades de aprender, experimentar, trocar e construir novos conhecimentos!
Da sala de aula passei para o Serviço de Supervisão Escolar... mais um grande desafio! Não foi fácil ampliar o olhar de uma única disciplina para o todo da Escola... foi mais um recomeçar! Aos poucos fui me apropriando do papel e das responsabilidades que esse novo desafio me trouxe e fui construindo um trabalho pautado na busca de informações, estudos, diálogos, trocas de experiências e, acima de tudo, de respeito pelo meu trabalho e pelo trabalho de todos os meus colegas. Foram muitos os momentos de receio, insegurança, conflitos e reavaliação do trabalho realizado... também foram muitos os momentos de certezas, alegrias, conquistas e retorno positivo das ações do meu Serviço sobre o todo da Escola. Falar sobre as ações do meu Serviço não significa falar de ações isoladas da minha pessoa mas sim de ações compartilhadas por uma equipe que discute, planeja e estabelece as diretrizes educacionais da Escola.
Também acrescentei às minhas experiências o trabalho realizado na Secretaria Municipal de Educação de Gravataí, integrando o Núcleo de Educação Especial – trabalho riquíssimo que me trouxe novos conhecimentos e experiências sobre a legislação da educação Especial e as diferentes deficiências. Nessa época, Gravataí era reconhecida como um Pólo da Educação Inclusiva – salas de recursos estavam sendo implementadas e todas as formações tinham como objetivo principal a Inclusão.
Em Gravataí destaco duas experiências que foram importantíssimas para a minha formação: o período de dois anos em que atuei numa Sala de Recursos Multifuncional e a participação no planejamento e implementação do projeto de Inclusão de alunos Surdos no Ensino Médio de uma Escola regular desse município.
Como inicialmente me propus a destacar apenas episódios significativos da minha caminhada inicial na Educação de Surdos, penso que é hora de encerrar essa narrativa. Certamente haveriam outras narrativas a serem feitas pois todos os dias acontecem novas experiências dentro e fora da Escola , mas essas ficarão reservadas para uma próxima narrativa.
Um grande beijo....
Elisabete Magalhães
Elisabete Magalhães

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