Olá querido Cacau
É com muita alegria que escrevo esta carta para ti contanto um pouco da minha vida na área da educação de surdos. Digo isto pois tu tens um papel muito importante, uma vez que foste o meu primeiro professor oficial de libras.
Lembro bem das tuas aulas, na mesma época em que eu era monitora da disciplina de Educação Especial e inclusão, lembro-me das reuniões que tínhamos basicamente em Libras, eu, você, e as professoras Adriana e Lodenir, recordo também que na época (2008 eu acredito) eu mal compreendia o que era dito, iniciava meu caminho por esta língua que hoje utilizo no meu trabalho e no convívio com grandes amigos.
Bem, mas iniciando minha história gostaria de dizer que é uma história ainda bastante curta, mas vivida de maneira bastante intensa até o momento. Sei que é diferente de grande parte das pessoas que estão nesse curso conosco, que já possuem anos de docência em escolas de surdos, ou que já possuem contato com essa comunidade desde a infância. Sou uma caminhante ainda nos primeiros passos, trilhando entre ensaios e erros, aprendendo muito a cada dia e aproveitando ao máximo as oportunidades que a vida me dá.
Falando em oportunidades, ou seja lá como eu deveria designar os passos desse percurso na educação de surdos, todas as vezes que tento pensar sobre como cheguei aqui, percebo que a vida costurou tudo de maneira tão bela que parece que não havia como eu estar em outro lugar. Em primeiro lugar, nasci no dia do surdo, 26 de setembro, mas é claro que muitas outras pessoas nasceram no mesmo dia e nem por isso seguiram este caminho.
O fato é que não fazemos as nossas escolhas de maneira arbitrária, nosso pensamento não é só nosso, nem nossas ações o são.
A minha lembrança mais remota de algum contato com a língua de sinais foi há uns 10 anos, quando na semana da água eu vi a apresentação de uma turma de alunos surdos de uma classe especial apresentarem a música “Planeta Água” de Guilherme Arantes em um coral. Na época, não fiz nenhum julgamento, nem tenho muitas lembranças do evento, recordo apenas que foi neste momento que aprendi o primeiro sinal: água, que tem muita relação com a maneira em que me fui me relacionando com a Libras. A água não é parada, é fluida, móvel, nos escapa das mãos, não é possível prendê-la entre os dedos, embora ela sempre deixe resquícios.
Desta apresentação me ficaram duas coisas: um sinal (água) e um encantamento, mas eu não imaginava que seria mais que isso...é estranho como na vida nós não temos completamente o controle de tudo, não sabemos onde vamos parar seguindo por um ou por outro caminho... Assim como não sabemos que algo remoto do passado pode se relacionar com algo importantíssimo no presente. O fato é que quando em 2006 eu passei no vestibular para pedagogia da UFRGS eu não imaginava que isto iria me aproximar de tantas coisas. Não imaginava que esta faculdade mudaria de tal forma a minha vida.
Talvez eu já tenha te contado, mas o fato é que em uma das viagens diárias de ônibus até a faculdade encontrei um menino surdo, um menino que parecia sempre triste e solitário no ônibus, e não sei exatamente porque até hoje, que embora eu seja bastante tímida resolvi começar um contato com ele, saliento, no entanto, que nesta época eu ainda não tinha te conhecido e portanto meu conhecimento em língua de sinais se restringia a apenas um sinal.
Como primeira tentativa de contato com esse menino eu lhe escrevi uma carta, e passei vários dias tentando a entregar, mas minha timidez me impedia, até que um dia eu resolvi:”quando ele descer do ônibus eu entrego a carta pela janela”, ele desceu, eu segurei a carta na janela, ele olhou para mim, eu não entreguei a carta (imagina a situação, eu morrendo de vergonha, e ele alí me olhando com aquela cara” ta, que tu quer afinal?”) e o ônibus arrancou. No outro dia afinal, eu pedi ao cobrador que entregasse a carta, e assim ele fez. Não precisou dizer quem tinha mandado, acho que ele já sabia (todo mundo do ônibus já sabia, depois de tantas tentativas em entregar a carta e não conseguir). Aqui você pode estar pensando “isso mais parece uma história de amor”, e eu respondo” é sim, uma história de amor pela LIBRAS, pela cultura dos surdos e tudo o que isso representa”.
Bem, mas continuando a história, no outro dia esse menino sentou ao meu lado no ônibus, muito apreensivo, procurando algo na mochila, olhava para mim como se quisesse dizer algo e revirava a mochila. Diante dessa situação eu peguei uma folha do caderno e escrevi: “tu não fala né?”, ele respondeu que não, com um olhar triste e como que se desculpando (não tenho como expressar em palavras o que todos os gestos e expressões desta história realmente representam), então eu comecei a conversar com ele escrevendo, depois aos poucos ele também foi me ensinando alguns sinais, trazia materiais de um curso de libras, e fomos construindo uma bonita amizade que existe até hoje.
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Concomitantemente a estas viagens até a faculdade, obviamente, haviam as aulas, e foi em uma cadeira eletiva durante o meu terceiro semestre do curso de pedagogia que fui conhecer mais uma das pessoas que me auxiliariam a percorrer este caminho de busca e encantamento com o povo surdo: a professora Lodenir Becker Karnopp (a nossa mãe como tu dirias). Foi durante esta disciplina que li os primeiros textos sobre a surdez, os quais como tantos outros constituem os meus textos (falados, sinalizados ou escritos), bem como constituem a pessoa que eu sou, além de ser também nesse período que passei a perceber a surdez como um espaço de cultura, não como uma deficiência. As “aulas de libras” no ônibus continuaram e foi em um desses momentos que recebi o meu sinal, “um J finalizando em espiral”, remetendo ao meu cabelo (embora hoje em dia muitos achem que é um J unido ao sinal de “magro”. E foi a partir desse dia que eu senti que estava sendo aceita nesse mundo que eu tanto admirava, eu também podia ser representada em libras, foi um dia bastante marcante, que me recordo muito bem até hoje.
(...)
Em 2008 então resolvi estudar mais, me inscrevi na disciplina de LIBRAS na faculdade, e também me inscrevi em um curso de LIBRAS nível básico, eu queria realmente aprender esta língua, pois embora nos esforçássemos muito no ônibus, não era fácil aprender em uma viagem de 40 min, muitas vezes atrapalhada por um ônibus lotado, com pessoas paradas atrapalhando a visão que tínhamos um do outro, e assim impedindo a comunicação. E eu também aos poucos percebi, que se eu realmente quisesse aprender mais sobre tudo isso, além de ler muito, eu precisava me inserir mais nessa cultura, e para isso era importantíssimo me apropriar da língua.
O fato, é que nesse mesmo semestre, por coincidência (se é que coincidências existem) a professora Lodenir me convidou para ser monitora da disciplina que ela ministrava : Educação especial e inclusão. Foi então que eu conheci a professora Adriana Thoma (que também ministrava a mesma disciplina), e me aproximei de ti (que já era meu professor de libras).
E a partir daí tudo aconteceu de maneira ainda mais interligada e rápida, e em menos de dois anos eu já havia me tornado professora de surdos.Primeiro, em pouco tempo como monitora, me tornei bolsista de iniciação cientifica da professora Lodenir Becker Karnopp, e assim intensifiquei minhas leituras, ampliei meus conhecimentos e também o meu contato com o povo surdo, uma vez que a pesquisa na época demandava que eu visitasse escolas e aplicasse questionários a alunos surdos, tendo por companhia um pesquisador surdo. Neste meio tempo também participei como colaboradora da primeira edição deste curso que estamos participando agora, e me lembro de muito do bem do sentimento de admiração que tinha ao ouvir as histórias de todos professores, e recordo que ficava imaginando se algum dia eu estaria fazendo o mesmo, e incrivelmente em tão pouco tempo estou. Fui bolsista da professora Lodenir até o ano passado quando me formei em pedagogia, antes porém fiz meu estágio de sétimo semestre na escola Frei Pacífico. Período de grande desafio para mim, mas acho que a vida tem me desafiado a longa data e isso tem me feito crescer muito. Lembro que eu preparava as aula e pensava “se eu não souber algum sinal do que eu preciso ensinar aos meus alunos eu irei perguntar ao Cacau”, e realmente aprendi muito contigo, aprendi a lutar, a acreditar em mim mesma, e aprendi que Libras não é assim tão difícil de aprender.
No semestre seguinte iniciei meu trabalho de conclusão com a orientação também da professora Lodenir, sobre as marcas identitárias dos surdos nas produções acadêmicas de mestrado e doutorado na Faculdade de Educação da UFRGS. Depois do meu estágio também fui contratada na escola Frei Pacífico, onde trabalho há um ano e meio, tendo mais contato com a língua de sinais durante o dia do que com o português que é a minha língua materna.
Tenho muito orgulho desta história, estou certa de que ela não chegou ao fim, muito pelo contrário, não imagino mais minha vida em outro caminho, e agradeço a ti por ter feito o teu papel como ótimo professor, me apoiando no momento do meu estágio, sempre acreditando em mim e trazendo alegria aos bons tempos de pesquisa na FACED.

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