Porto Alegre, 29 de agosto de 2011.
Cara Bete,
Acho que podes imaginar como fiquei feliz quando vi que seria para ti que eu escreveria. Nos conhecemos há 10 anos, e tu fazes parte das minhas memórias e eu das tuas, sei disto.
Minhas lembranças na educação de surdos me remetem para 1993, quando ingressei no curso de Educação Especial, tendo que sair da minha casa para morar em outra cidade, ato que considero de grande coragem, já que poucas condições sustentavam esta minha, e só minha, decisão. Fui de metida que sou! E valeu!!!!
Já formada trabalhei sempre com surdos, em APAE, em classes especiais, em educação infantil, em educação de jovens e adultos, em escola de surdos, no ensino fundamental e até Matemática eu ensinei, com a tua colaboração! Cometi alguns erros na lida com os números, mas tu sempre estiveste a me socorrer. Aprendi muito no tempo em que convivíamos mais pertinho. Saudades deste convívio...
Hoje trabalho numa escola em que colaboro para a sua constituição e para a sua manutenção, procurando aproximar-me de um trabalho de qualidade, que é característica de todos os profissionais que lá estão. Tenho um desafio muito gostoso: trabalhar com crianças surdas bem pequenas e seus familiares, na descoberta da LIBRAS. Digo sempre: “ganho” para brincar! Participo da descoberta dos primeiros sinais; posso presenciar a surpresa dos pais ao verem seus filhos sinalizando “pai” e “mãe” pela primeira vez; posso vê-los compreender as possibilidades de trocas de afeto que a LIBRAS também permite.
Também ingressei no mestrado, neste ano, o que me faz muito feliz. Ler, estudar, ouvir, escrever. Estes verbos sempre me mobilizaram, me deram disposição, me revigoraram. Pensar em como a inclusão escolar vem se constituindo e quais seus efeitos em nós professores, em nossos alunos, enfim, na educação, é algo que estou aprendendo a fazer a partir de outros olhares, nesse outro espaço que agora passo a fazer parte.
Não sei o que vai acontecer daqui para frente, não sei até quando vou fazer parte da educação de surdos, se é que, depois de dar este mergulho, conseguimos sair. Mesmo esta carta sendo uma carta de memórias e breves narrativas sobre minhas experiências, não deixo de pensar que outras memórias irão se constituir, memórias futuras que espero cada vez mais belas e que tu possas fazer parte delas, mesmo que numa proximidade distante.
Ana Cláudia Ramos Cardoso

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