Escrevo esta carta para lhe contar sobre a situação de escolarização de uma aluna surda institucionalizada (situação de crianças abandonadas, carentes ou infratoras têm ou tiveram uma família sem condições de oferecer um ambiente familiar adequado). Tema que não é novidade e nem desconhecido por nós, mas não é algo que se vê no noticiário e nem num programa de TV. No entanto, estamos diante de um problema social cada vez mais frequente na nossa realidade de inclusão.
Após as apresentações nas últimas aulas, como é de conhecimento, sou professor da rede pública de Manaus/AM, por este motivo lhe contarei a história de uma aluna surda manauara que atualmente “mora” em um orfanato e estuda na escola que eu lecionava, foi quando obtive contato com esta criança, que passarei a relatar brevemente sua situação. Para preservá-la, ao me referir a esta criança, usuremos o nome fictício de “Júlia”.
A Júlia tem hoje dez anos, apresenta perda auditiva bilateral, sem causa diagnosticada, mora no orfanato com 16 crianças ouvintes em seu dormitório. Sabe-se pouco de sua história clínica e psicoemocional pregressa, pois foi recolhida da rua com quatro anos de idade. Como não houve nenhuma notificação de desaparecimento para polícia o serviço social do Estado decidiu e encaminhá-la ao abrigo.
Segundo o relatório do abrigo, a Júlia era agressiva com as demais crianças e com os monitores, chorava muito quando estava sozinha, roubava comida e tentava fugir. Por “não saber falar” as outras crianças não queriam brincar com ela ou interagir em alguma atividade do abrigo.
Após algumas tentativas de escolarização, ela foi passando pelos ciclos de aprendizagem do Sistema Regular de Ensino, o qual a aprovou pelo primeiro e segundo ano sendo retida no terceiro ano do primeiro ciclo, pois nos dois primeiros anos não há reprovação (o primeiro ciclo de aprendizagem é o equivalente a alfabetização, 1ª e 2ª série). Os relatórios das professoras dos anos anteriores a identificava como aluna tímida, retraída, algumas vezes agressiva, sem interação nas atividades de grupo e com habilidade para pintura e atividade de recorte e colagem, sendo que neste período não apresentou desenvolvimento de linguagem escrita e oral, executando as atividades de aula com ajuda.
Apenas este ano de 2011, com dez anos de idade, foi encaminhada para escola específica de alunos surdos, após uma solicitação de sua professora do ano anterior à secretaria de educação.
A Julia chegou à escola com sequelas de uma institucionalização prolongada, mostrando ser uma criança insegura, submissa, sem questionamentos, de pouca iniciativa a conversação e com dificuldade interpessoal. Acredito que o convívio restrito, a rotina de regras, e os castigos sejam o fator primordial do seu atraso linguístico, cognitivo e sócio-afetivo. Ressaltando ainda a falta de um meio comunicativo efetivo (expressão corporal e facial, gestos, Libras).
A Júlia se comunicava basicamente por meio de mimicas e gritos até ser atendida, aos poucos percebe-se o desenvolvimento na sua comunicação com o uso da Libras e interação com as crianças, até os monitores do abrigo relataram seu progresso e sua cobrança para que eles aprendam Libras. Claro que seu potencial está aflorando, mas muitas habilidades ainda precisam ser desenvolvidas, é o começo, não é um “milagre”.
Espero que o tempo perdido sem a Libras e sem o convívio com outras crianças surdas seja superado, para que ela possa descobrir e criar novas possibilidades para sua vida, atuando como cidadã consciente e participativa. Superando os traumas, a restrição social e a pobreza no relacionamento afetivo, que a falta da vida em família traz, limitando a oportunidade de trocas afetivas emocionalmente significativas.
É minha colega, o futuro somente à Deus pertence e a nós foi dado um instrumento que pode fazer a diferença, sabedoria/ aprendizado.
Esta carta é um caso de desrespeito à uma criança, não consegui relatar tudo que ela passou na rua ou no abrigo, mas posso dizer que esta criança sabe o significado de dor, agora ela precisa saber o significado de amor.
Teremos outras oportunidades para conversar, e tenho outras situações de desrespeito à pessoa surda que gostaria de relatar, pois com a Libras pude ser a voz de quem gostaria ser ouvido.
Abraço.
Adiel P. Leão

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