sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

De Elisabete Magalhães para Rosi - 2ª Carta

Olá colega Rosi! Ainda não nos apresentamos formalmente, mas já sabemos que temos algo em comum: memórias de experiências com alunos Surdos que nos motivaram a estar inscritas neste curso. Destas memórias trago hoje a narrativa de uma aluna que reside em abrigo desde 2002 e que chegou a nossa Escola em 2005, aos 14 anos de idade, para cursar uma 4ª série do Ensino Fundamental. Para preservar a identidade da menina, vou nesta narrativa chamá-la de Maria.
Maria nasceu em 1991 e a aos três anos de idade apresentou uma perda auditiva profunda bilateral causada por meningite. Dos dois aos sete anos esteve aos cuidados de um tio; aos sete anos voltou para os cuidados da mãe, pois o tio alegou não ter condições para manter a menina. Por negligência e maus tratos da mãe, Maria foi encaminhada para um abrigo em 2002.
Maria não é protetizada e ao ingressar numa Escola Estadual com classe especial para Surdos, aos 13 anos, comunicava-se apenas por gestos. Apresentava dificuldade para comunicar-se com os professores e colegas e mostrava-se ansiosa e insegura no período de adaptação e aquisição da Língua de Sinais. No abrigo, Maria tinha contato com um menino surdo, também abrigado, que morava numa outra casa situada no mesmo terreno da sua casa.
Em 2005, com o fechamento da classe especial na Escola Estadual, Maria foi encaminhada para a escola onde trabalho. No primeiro contato, recusou-se a participar da entrevista e avaliação - estava contrariada com mais essa mudança em sua vida e queria estar com suas colegas que foram encaminhadas para outra escola de Surdos. Conhecendo sua história me dei conta de quantas mudanças aconteceram nessa pequena trajetória de vida, marcadas sempre pelo silêncio, pela falta de comunicação e pelo pouco (ou nenhum) entendimento dos fatos que marcavam profundamente a sua vida. Como poderia aceitar pacificamente mais uma mudança que a afastava de pessoas com quem queria estar, mesmo que esse vínculo afetivo fosse ainda muito frágil?... esse e muitos outros questionamentos trouxeram inquietações ao grupo de profissionais da nossa escola.
Na entrevista com a responsável pela casa que abrigava Maria soubemos que a menina chegou em 2003 ao abrigo de Porto Alegre (anteriormente estava num abrigo da região metropolitana) e que apresentava sintomas depressivos como agressividade e isolamento. Mostrava-se intolerante quando contrariada e não conseguia expressar seus sentimentos. Nos primeiros dias de aula observamos que a menina tinha um conhecimento restrito da LIBRAS que também limitava o seu acesso aos conhecimentos formais das diferentes áreas do conhecimento. Daí decorre a dificuldade da linguagem compreensiva e expressiva na Língua de Sinais, bem como uma defasagem cognitiva também justificada pela ausência de estímulo apropriado na infância.
Ao longo de 2005 Maria foi apropriando-se lentamente da LIBRAS, adaptando-se à nova organização escolar e estabelecendo vínculos com alguns colegas. Mantinha ainda o comportamento intolerante quando contrariada e, em muitas ocasiões, isolava-se do grupo de colegas. Mostrava-se resistente às atividades que envolviam a Língua Portuguesa escrita e, muitas vezes, recusava-se a realizá-las. Foi encaminhada para atendimentos de fonoaudiologia e psicologia. Em 2006 já podíamos observar uma maior habilidade ao comunicar-se plenamente com a utilização da LIBRAS. Estava bem adaptada à rotina da escola, aos novos colegas e demais profissionais da escola. Também demonstrava maior disponibilidade às interações e intervenções pedagógicas; mas ainda mostrava-se intolerante ao ser contrariada.
Maria participou de um Projeto Educativo de Inserção ao Mundo do Trabalho com geração de renda, oferecido por um programa de parceria entre a nossa escola e outra instituição. Participavam desse projeto adolescentes surdos e ouvintes em vulnerabilidade social, numa proposta inclusiva. Fazia parte do programa a aula de LIBRAS para os ouvintes e a presença de um intérprete para todas as atividades previstas. Podemos afirmar, com certeza, que a participação nesse projeto trouxe mudanças significativas, tanto no aspecto cognitivo, como no aspecto psicossocial e afetivo, para a vida da Maria. Observamos uma modificação positiva da sua autoestima, autonomia e, principalmente, nas relações afetivas que estabelecia com outras pessoas.
Hoje Maria está mais alegre, segura, adapta-se com facilidade aos novos espaços, relaciona-se de forma afetiva com seus amigos, expressa-se com maior fluência na Língua de Sinais e está avançando em relação aos conhecimentos formais. Está menos resistente às atividades de leitura e escrita da Língua Portuguesa e desenvolve de forma satisfatória a área lógico-matemática. É organizada, responsável e participa com interesse de todas as atividades da escola. Com apoio de seus cuidadores e dos profissionais da escola, Maria está mudando o “curso da sua história”, conquistando espaços significativos para a construção do seu futuro.
Entretanto, algumas questões ainda nos preocupam em relação ao futuro de Maria e de tantas outras crianças e adolescentes Surdos que se encontram abrigados: como se dará o desligamento de Maria do abrigo?... para onde irá?...quem acompanhará essa nova trajetória?... e que implicações essa nova mudança trará para a vida dessa adolescente?...Ainda não encontramos respostas que acalmem nossas inquietações. Conhecemos outros adolescentes que passaram pela mesma situação, mas sabemos que o desligamento não foi realizado de forma positiva.
Essa situação sempre está presente em nossas discussões, sabemos que precisamos participar de alguma forma desse processo mas ainda não sabemos como. Nos preocupa a forma como crianças e adolescentes Surdos são encaminhados para a abrigagem, pois não há formação para os profissionais que os recebem, nem para os monitores que lidam com eles diariamente – falta comunicação e um olhar diferenciado para essas crianças e adolescentes cujas carências ultrapassam os limites da afetividade.
Espero que essa minha narrativa possa contribuir de alguma forma para a sua caminhada na Educação de Surdos.

Um abraço...

                               Elisabete Magalhães – 14/09/2011


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