sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

De Júlia para Fabiane - 2ª Carta

Prezada colega Fabiane,

Alicia Fernández  em O SABER EM JOGO (2001) traz em uma parte do livro o tema do sujeitos de direito X os objetos de tutelagem: Mesmo que o século XX seja chamado de o “século da criança”, o que significou um avanço em relação ao reconhecimento da existência concreta da criança,  ainda temos muito por fazer. As meninas e  os meninos, assim como todas as crianças carentes, marginalizadas e excluídas como pessoas, ainda não adquiriram reconhecimento como tal.”( pag. 95)
O caso que vou te relatar trata de uma pequena parte da história de um menino que trabalhei durante os anos de 2004 a 2006 em uma escola especial da RME de Poa, com alunos surdos que tinham deficiência intelectual. G. foi encaminhado para avaliação em junho de 2004, estava abrigado desde fevereiro de 2003 em uma instituição própria para adolescentes em medida protetiva  entre 14  e 18 anos (menores que haviam cometido infrações mas que podiam ir e vir durante o dia) que ficava vizinha a essa escola. Quando recebi os laudos anteriores (médicos e psicológicos) reconheço que temi pelo que viria: violência, agressividade, surtos, inconstância,... G. vinha de uma família desestruturada: a mãe morreu de câncer enquanto ele era pequeno, o pai tinha problemas com o álcool, o irmão mais velho  sofria de esquizofrenia  e a irmã gêmea (também surda)  havia sido vítima de abuso e G. havia sido considerado o autor.
Quando o aluno chegou para a avaliação vi um gigante, um adolescente alto, forte, pele branca e olhos verdes curiosos. Após o período de avaliação e seminário ele foi encaminhado à matrícula e começou a freqüentar o grupo com outros adolescentes. G. (que havia estudado em escola estadual) foi mostrando quem ele realmente era - bem diferente dos prontuários que li! Ele era adorável, zeloso, sorridente, companheiro, amava ver os pequenos da escola, nunca demonstrou agressividade ou condutas inadequadas.
Durante o percurso escolar, eu não entendia como ele podia estar em um abrigo tão horrendo, sofrendo em ter sua liberdade privada, pois necessitava ficar separado dos outros internos, já que na sua ausência de malícia, foi vítima dentro do próprio abrigo e como medida rápida, vivia isolado para poder ser protegido. Isso foi até reportagem da Zero Hora na época!

A irmã gêmea vivia em um abrigo residencial do Estado: AR ou como chamamos usualmente-casinhas! Elas recebem crianças e adolescentes com ou sem deficiência e tem monitores/cuidadores, que tentam aproximar a vida diária com a de um lar. Não é exatamente o modelo ideal, mas sempre convivi com crianças que moravam nesses abrigos e percebia os cuidados que recebiam.

G. era para estar lá também, era tão vítima quanto a irmã! Os funcionários do abrigo também dividiam conosco a preocupação na sua integridade física e psicológica enquanto vivesse nesse espaço. Não lembro como tudo começou exatamente, mas em 2005 iniciamos um movimento para que ele saísse do abrigo para infratores e fosse recebido no AR que a irmã vivia. As responsáveis por ele na escola anterior (CADEP) também se solidarizaram e fomos montando uma rede: pareceres, documentos, reuniões com o serviço de psicologia do abrigo, juiz da infância e juventude,... Foram alguns meses de muitas tentativas até que G. recebesse o parecer do juiz, baseado em nossas considerações, e se mudar para o AR.
Ele saiu do abrigo em junho de 2005 e durante essa mudança, foi pouco assíduo na escola, teve um período doente, faltou bastante. Cobramos sua freqüência e o responsável nos relatou que ele estava muito frágil mas assim que pudesse ele freqüentaria a escola. Quando ele retornou, foi um choque! G. havia emagrecido, enxergava menos que antes, andava cambaleante, se batia nos móveis, paredes, quase não conseguia comer sozinho... Cada vez mais esse quadro foi se ampliando, a impossibilidade de sair da cama chegou junto com a hospitalização e um tempo depois (maio de 2006) ele faleceu!
Quando recebi a notícia da morte de G., foi inevitável pensar: ele redescobriu sua história e sua existência, foi autor de uma um novo final, se reencontrou com a irmã, teve paz novamente, a muralha gigante que ele era se desfez, e ficou tão leve,  que pode se deixar levar.
Porto Alegre, 12 de setembro de 2011.
Júlia Barreto


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