Querida Renata, infelizmente não conheço nenhuma história verídica de surdos que foram deixados em abrigos para lhe contar em detalhes, mas posso lhe garantir que isso me incomoda, isso para não dizer revolta.
Gostaria de dizer que não existem histórias assim, e tal escrita é complicada por não haver onde e nem o que pesquisar, mas no mundo acontecem coisas que muitas vezes nos envergonham. E falo isso não apenas sobre o “desrespeito” que existe com a comunidade surda, mas de várias crueldades que existem no mundo e que nos cercam.
O tema da escrita me fez lembrar um filme que assisti chamado “E Seu Nome é Jonas”, que relata a história de um menino surdo entre 6 e 7 anos de idade que encontra muitas dificuldades no seu convívio social. A primeira foi o fato de ter sido diagnosticado, na época, como retardado mental, e internado por três anos em um hospital psiquiátrico
O filme se passa no final da década de 70, e talvez isso explique a dificuldade dos médicos de diagnosticá-lo como surdo, o que evitaria a sua internação em um hospital psiquiátrico. Jonas era um garoto totalmente comum, gostava do que as outras crianças gostavam, mas nunca era compreendido. A cena mais marcante do filme, na minha opinião é quando o menino sai para a rua à noite e um policial o aborda. Ele, não conseguindo estabelecer uma comunicação com a criança, e por Jonas ficar nervoso, o classifica como retardado mental, e o leva para um hospital psiquiátrico.
Mais uma vez Jonas é vítima da ignorância, não apenas do policial, por não entender a língua de sinais, mas da sociedade da época, que pela falta de sensibilidade em avaliar uma criança nervosa e que não consegue se explicar oralmente é incapaz de conviver em sociedade, restando-lhe apenas a internação psiquiátrica. Para infelicidade do Jonas ele não sabia se comunicar em língua de sinais, pois só começaria a aprendê-la no final do filme.
É através de histórias e reflexões que fazemos a partir de temáticas como esta que podemos analisar de forma crítica a importância da linguagem para um ser humano. Afinal, ouvir e ser ouvido são muito mais que um direito, é o modo ideal para se tentar viver de forma mais igualitária em um mundo onde quem tem voz/sinais tem vez e lugar.
Kelli Cristna Trindade

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