Porto Alegre, 12 de setembro de 2011.
Caro amigo Adiel Philipe!
É um prazer poder escrever para ti e em breve te conhecer pessoalmente.
Meu relato é sobre um surdo que conheci a algum tempo e algumas de suas experiências vivenciadas em abrigo, no qual foi morar ainda muito pequeno. Ele mesmo relata que nasceu surdo, devido a um “tombo” de sua mãe, quando estava grávida. A. pertence a uma família extremamente vulnerável, que não tinha condições mínimas para criá-lo e sustentá-lo. O abrigamento foi a solução utilizada para que pudesse receber os cuidados que necessitava e para evitar a situação de risco. Além da baixa condição socioeconômica de seus familiares, sua mãe era alcoólatra e usuária de drogas, não tendo possibilidades de cuidar dele.
Com isto foi recolhido e encaminhado para um abrigo aos dois anos de idade. Nesta época, colocar crianças e adolescentes nestas instituições, se configurava como instrumento de exclusão, visto que funcionava como verdadeiras “prisões” onde todas as atividades e serviços eram desenvolvidos dentro dos muros das entidades – educação, atenção à saúde, lazer (quando existia).
Por alguns anos, A. manteve um convívio bastante tumultuado com as outras crianças. Convivia com crianças ouvintes, não era entendido e ao mesmo tempo não se fazia entender. Sua comunicação era difícil. Também não teve acesso à escola, dificultando o seu desenvolvimento cognitivo, social e linguístico. Aos nove anos começou a ter contato com a Língua de Sinais, com uma professora que se interessou pelo seu desempenho, dando-lhe estímulo para aprender e ir até o máximo que conseguisse, para poder se colocar na sociedade, mesmo tendo suas diferenças, dificuldades e limitações. Este fato facilitou o convívio, o vínculo e a melhora nas relações com as outras pessoas do abrigo.
Ao completar quatorze anos, conta que saiu do abrigo, indo morar nas ruas, tentando reconstruir sua história de vida e assumir sua identidade de homossexual. Atualmente sei que reencontrou uma tia, num bairro da cidade de Viamão, no qual passou a residir. Infelizmente a tia foi presa, deixando-o com a responsabilidade de cuidar de duas crianças pequenas.
A. é bastante conhecido em vários bairros da cidade onde vive pedindo doações para o sustento da família. Com certeza, convive com a dura realidade da prostituição, miséria e descaso social. Na reconstrução de sua história e em suas andanças pelas ruas e sobre a sua vida neste período, ainda continua se deparando com uma sociedade exclusiva e preconceituosa. Relatar esta história e triste realidade produziu em mim, um sentimento de querer saber mais informações e de criar novas possibilidades de pensar sobre os variados desafios que os surdos e ouvintes encontram em suas experiências.
Com isto, a minha busca constante de formação, especialmente na área da surdez, para ampliar conhecimentos e auxiliar crianças/adolescentes em situações semelhantes à de A. Quem sabe, aos poucos, consigamos garantir de fato, o direito desses indivíduos a um desenvolvimento psicossocial em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente e com uma sociedade inclusiva.
Espero que através deste curso, possamos compartilhar nossas experiências e assim contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.
Um abraço e até breve!
Rosi.

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