Olá Cláudio!
É um prazer encontra-lo. Conheço você á algum tempo e tenho que te dizer sinto uma profunda admiração por tua luta. Acompanhei uma audiência pública na Assembleia Legislativa em outubro de 2010 em que fizeste um brilhante relato das experiências que tiveste em Brasília. Fiquei muito emocionada. Acompanhei tua formatura no curso de Letras Libras na UFSM em fevereiro e achei tudo muito lindo. Mas então, cumprindo mais uma das nossas tarefas tenho uma história triste para te contar. Algum tempo atrás tivemos uma aluna, a Eloisa (nome fictício). A história dessa menina é bem estranha e triste. Não posso entrar em detalhes mais profundos, pois os mesmos me foram negados por motivos de sigilo. Os dados que obtive foram através de relatos de colegas que foram professoras da Eloisa e que sabiam os motivos que levaram a garota ser retirada da casa da mãe.
Quando ela ainda era muito jovem, por volta dos 8 ou 9 anos de idade, uma instituição que abriga crianças e adolescentes em situação de risco de Santa Cruz do Sul, por ordem judicial, recebeu a Eloisa. Segundo relatos de minhas colegas, ela foi retirada da família por que o padrasto, entre outros tipos de maus tratos físicos e psicológicos, a deixava trancada no armário. O fato foi comunicado as autoridades por conta de denúncias que foram feitas. Até então a Eloisa não frequentava nem uma escola, provavelmente por ser surda, a família a mantinha em casa. A assistente social da instituição foi quem encaminhou a Eloisa para a escola, a única da cidade que tinha surdos. De acordo com as professoras a menina, não conhecia outros surdos, nem a Língua de Sinais. Tinha pânico de lugares fechados e surtava quando a porta da sala de aula era fechada, preferia sentar nos corredores ou então nas escadas onde chorava muito. Foi um trabalho muito difícil para as professoras, fazer a Eloisa entender que não se tratava mais da privação da sua liberdade. Sempre que podia uma ou outra professora adotava a Eloisa durante um fim de semana para que ela se sentisse mais segura.
Eloisa na escola, era uma menina muito amável, espontânea e se dava bem com todos, parecia a “mãezinha” das crianças mais pequenas da escola, pois as tratava com muito carinho. Em uma ocasião, conversando com pessoas que trabalhavam na instituição para a qual foi levada, descobrimos que, ela se sentia triste quando uma criança ou bebê abandonado saia da instituição por adoção ou por outro motivo, isso representava uma perda para ela, pois eles tinham um destino, uma família, e ela continuava lá. O tempo foi passando até que lá se fossem mais ou menos 5 anos, tempo que a Eloisa podia ficar na instituição, pois ao completar uma determinada idade, as crianças e adolescentes não adotados que tinham famílias, voltavam para casa ou então eram removidos para outros locais. O prazo de Eloisa expirou e ela não podia mais continuar naquele local, também não tinha condições de voltar para casa em consequência de tudo que tinha acontecido.
Eloisa embora tenha sofrido com os acontecimentos, sempre teve muita saudade da mãe e talvez isso tenha sido importante na decisão voltar, tempos depois e ficar junto com mãe. Nunca soubemos que a mãe a tenha mal tratado, sabemos da sua omissão frente os atos de seu companheiro. A solução para Eloisa era o Abrigo para Meninas e foi para lá que ela foi levada. Continuava na escola e no abrigo, onde começaram a surgir os primeiros problemas, sempre que voltava para junto da família, não queria retornar para o abrigo. Não se sabe ao certo por que. Talvez pelo convencimento dos familiares que tinham outros interesses, um deles, no benefício que a garota recebia.
Foram muitas idas e vindas, atrasos nas voltas e uma mudança significativa no comportamento. Começou a se suspeitar inclusive do uso de drogas, pela agressividade que ela apresentava. Eloisa chegou a ser internada em uma clínica de recuperação para dependentes químicos, mas nunca tivemos a comprovação de que ela realmente fosse usuária de qualquer tipo de entorpecente. Você sabe, essas coisas não nos são reveladas. Depois da internação, ela até tentou voltar para a escola, mas faltava muito nas aulas. Voltou definitivamente para a casa da mãe a mais ou menos 3 anos atrás. Hoje praticamente não temos mais notícias dela. Tentei contato com os responsáveis pela primeira instituição que mencionei e com o Abrigo, a casa lar onde ela morou por muito tempo, porém, me foram negadas informações, eu teria que ter uma autorização para poder investigar os arquivos onde consta mais detalhadamente essa história.
Lamento pelo sofrimento da Eloisa que, quando criança não teve liberdade para brincar ficando trancada dentro de um armário. Hoje é uma mulher que faz suas escolhas, ou não. Lamento por coisas que talvez pudéssemos ter feito e não fizemos por ela. Como saber? Não sei se conhece Cecília Meireles, ela escreveu o seguinte:
“LIBERDADE É UMA PALAVRA QUE O SONHO HUMANO ALIMENTA. NÃO HÁ NINGUÉM QUE EXPLIQUE E NINGUÉM QUE NÃO ENTENDA”.
Um grande abraço Cláudio e um olhar cheio de admiração,
Suzana Fardin

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