sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

De Suzana para Claudio - 2ª Carta

Olá Cláudio!

É um prazer encontra-lo. Conheço você á algum tempo e tenho que te dizer sinto uma profunda admiração por tua luta. Acompanhei uma audiência pública na Assembleia Legislativa em outubro de 2010 em que fizeste um brilhante relato das experiências que tiveste em Brasília. Fiquei muito emocionada. Acompanhei tua formatura no curso de Letras Libras na UFSM em fevereiro e achei tudo muito lindo. Mas então, cumprindo mais uma das nossas tarefas tenho uma história triste para te contar. Algum tempo atrás tivemos uma aluna, a Eloisa (nome fictício). A história dessa menina é bem estranha e triste. Não posso entrar em detalhes mais profundos, pois os mesmos me foram negados por motivos de sigilo. Os dados que obtive foram através de relatos de colegas que foram professoras da Eloisa e que sabiam os motivos que levaram a garota ser retirada da casa da mãe.
Quando ela ainda era muito jovem, por volta dos 8 ou 9 anos de idade, uma instituição que abriga crianças e adolescentes em situação de risco de Santa Cruz do Sul, por ordem judicial, recebeu a Eloisa. Segundo relatos de minhas colegas, ela foi retirada da família por que o padrasto, entre outros tipos de maus tratos físicos e psicológicos, a deixava trancada no armário. O fato foi comunicado as autoridades por conta de denúncias que foram feitas. Até então a Eloisa não frequentava nem uma escola, provavelmente por ser surda, a família a mantinha em casa. A assistente social da instituição foi quem encaminhou a Eloisa para a escola, a única da cidade que tinha surdos. De acordo com as professoras a menina, não conhecia outros surdos, nem a Língua de Sinais. Tinha pânico de lugares fechados e surtava quando a porta da sala de aula era fechada, preferia sentar nos corredores ou então nas escadas onde chorava muito. Foi um trabalho muito difícil para as professoras, fazer a Eloisa entender que não se tratava mais da privação da sua liberdade. Sempre que podia uma ou outra professora adotava a Eloisa durante um fim de semana para que ela se sentisse mais segura.
Eloisa na escola, era uma menina muito amável, espontânea e se dava bem com todos, parecia a “mãezinha” das crianças mais pequenas da escola, pois as tratava com muito carinho. Em uma ocasião, conversando com pessoas que trabalhavam na instituição para a qual foi levada, descobrimos que, ela se sentia triste quando uma criança ou bebê abandonado saia da instituição por adoção ou por outro motivo, isso representava uma perda para ela, pois eles tinham um destino, uma família, e ela continuava lá. O tempo foi passando até que lá se fossem mais ou menos 5 anos, tempo que a Eloisa podia ficar na instituição, pois ao completar uma determinada idade, as crianças e adolescentes não adotados que tinham famílias, voltavam para casa ou então eram removidos para outros locais. O prazo de Eloisa expirou e ela não podia mais continuar naquele local, também não tinha condições de voltar para casa em consequência de tudo que tinha acontecido.
Eloisa embora tenha sofrido com os acontecimentos, sempre teve muita saudade da mãe e talvez isso tenha sido importante na decisão voltar, tempos depois e ficar junto com mãe. Nunca soubemos que a mãe a tenha mal tratado, sabemos da sua omissão frente os atos de seu companheiro. A solução para Eloisa era o Abrigo para Meninas e foi para lá que ela foi levada. Continuava na escola e no abrigo, onde começaram a surgir os primeiros problemas, sempre que voltava para junto da família, não queria retornar para o abrigo. Não se sabe ao certo por que. Talvez pelo convencimento dos familiares que tinham outros interesses, um deles, no benefício que a garota recebia.
Foram muitas idas e vindas, atrasos nas voltas e uma mudança significativa no comportamento. Começou a se suspeitar inclusive do uso de drogas, pela agressividade que ela apresentava. Eloisa chegou a ser internada em uma clínica de recuperação para dependentes químicos, mas nunca tivemos a comprovação de que ela realmente fosse usuária de qualquer tipo de entorpecente. Você sabe, essas coisas não nos são reveladas. Depois da internação, ela até tentou voltar para a escola, mas faltava muito nas aulas. Voltou definitivamente para a casa da mãe a mais ou menos 3 anos atrás. Hoje praticamente não temos mais notícias dela. Tentei contato com os responsáveis pela primeira instituição que mencionei e com o Abrigo, a casa lar onde ela morou por muito tempo, porém, me foram negadas informações, eu teria que ter uma autorização para poder investigar os arquivos onde consta mais detalhadamente essa história.
Lamento pelo sofrimento da Eloisa que, quando criança não teve liberdade para brincar ficando trancada dentro de um armário. Hoje é uma mulher que faz suas escolhas, ou não. Lamento por coisas que talvez pudéssemos ter feito e não fizemos por ela. Como saber? Não sei se conhece Cecília Meireles, ela escreveu o seguinte:

“LIBERDADE É UMA PALAVRA QUE O SONHO HUMANO ALIMENTA. NÃO HÁ NINGUÉM QUE EXPLIQUE E NINGUÉM QUE NÃO ENTENDA”.

Um grande abraço Cláudio e um olhar cheio de admiração,

Suzana Fardin

Sônia M. Hercz para Carine - 2ª Carta

Histórias e narrativas sobre alunos surdos que vivem em instituições
 
Querida Carine,

Esta atividade é especialmente difícil para mim, primeiramente porque não tive ainda a experiência de trabalhar com alunos surdos que viveram ou vivem em instituições, também porque pensei que se buscasse alguma história na internet ela seria uma das muitas reproduzidas por outras colegas de curso, falar da experiência de outra colega não seria interessante, pois provavelmente ela também falaria, e por último acho que o que torna mais difícil é falar de um assunto tão tocante e certamente conheces muitas histórias ou narrativas pertinentes a este contexto. Ao tentar escrever esta carta noto que busco argumentos para justificar a falta de uma narrativa e percebo que talvez esteja fugindo, não tenho certeza, talvez se eu realmente conhecesse alguma história pudesse contá-la.
Tive oportunidade de ler em alguns textos que, no passado os surdos em geral estavam à margem do processo educativo e muitas vezes, pelas dificuldades enfrentadas pelas famílias eram abandonados em instituições que nem sempre prestavam atendimento adequado.  Apenas posso imaginar, não de tão perto por minha condição de ouvinte, o sofrimento psíquico a que estaria submetido um@ surd@ que vivesse numa instituição, sem ter outros pares para se comunicar,  sem ser entendido e respeitado, sem ter a oportunidade de desenvolver-se como poderia, provavelmente seus sentimentos e protestos seriam mal interpretados dificultando ainda mais a sua situação.  Felizmente, nos dias de hoje, estes casos não são tão comuns, os conhecimentos sobre o mundo surdo se multiplicam e o acesso a uma educação orientada para a cultura surda é possível.

Um abraço,

Sônia Maria Hercz
                      
                                             

De Sônia Luisi para Júlia - 2ª Carta

Porto Alegre, 13 de setembro de 2011.

Olá Júlia, logo no início do curso, quando no cronograma apareceu a tarefa de escrever sobre “Histórias e narrativas sobre alunos surdos que vivem em instituições (abrigos, hospitais e outro)” fiz uma breve retrospectiva na minha vida. Quando  estudante, nuca tive colegas institucionalizados. Minhas primeiras experiências como professora foram numa Escola Particular e lá também não tinha.
Iniciei na Prefeitura de Porto Alegre em 1996, numa Escola Infantil como professora de jardim A  e logo em seguida fui convidada para ser vice-diretora. Nesta época tive experiências com famílias muito vulneráveis socialmente, com carências econômicas e afetivas.  O trabalho era mais fazer o resgate para que famílias não perdessem a aguarda dos filhos. A partir do ano de 2005 fui ser assessora da Secretaria do Município de Educação de Porto Alegre no setor da Educação Especial.  Assessorava as Escolas Infantis no processo de Inclusão das crianças.
 Júlia, eu aprendi muito e tive muitas experiências...
Uma destas experiências foi a Vitória (troquei o nome), deixada no Abrigo desde o seu nascimento. Vitória é múltipla deficiente. Vitória passou pelo processo de seleção das Escolas Infantil e conseguiu uma vaga para iniciar sua vida escolar com três anos de idade. A sua chegada na Escola mobilizou a todos. A entrevista das educadoras da Escola com as responsáveis pela menina, monitoras do abrigo, deixaram marcas – “Vitória é praticamente vegetativa, fica deitada na cama o dia todo, usa fraldas e toma mamadeira”. O desafio estava lançado para toda a Escola, juntamente com o serviço de apoio do Setor de Educação Especial da Rede.
Vitória frequentou a Escola infantil por três anos e após foi incluída na Rede regular de Ensino do Município. O que me mobiliza neste fato foi a “marca” que a Vitória trazia em sua história de vida de três anos.  O olhar do outro que trazia. Com muita luta, conseguiu ser vista como uma menina de possibilidades.Tenho refletido muito nos alunos que passam por nós, educadoras. Conseguimos vê-los pelo viés da possibilidade? Respeitamos suas diferenças? Acho que isso cabe para crianças de abrigos e instituições como também para crianças de famílias que lutam para um lugar melhor para seu filho na sociedade.
Júlia, foi um prazer deixar por escrito algumas reflexões que venho fazendo no nosso dia-dia na Escola.

Com carinho,
Sônia Luisi

De Rosi para Adiel - 2ª Carta

Porto Alegre, 12 de setembro de 2011.

Caro amigo Adiel Philipe!

É um prazer poder escrever para ti e em breve te conhecer pessoalmente.
Meu relato é sobre um surdo que conheci a algum tempo e algumas de suas experiências vivenciadas em abrigo, no qual foi morar ainda muito pequeno. Ele mesmo relata que nasceu surdo, devido a um “tombo” de sua mãe, quando estava grávida.  A. pertence a uma família extremamente vulnerável, que não tinha condições mínimas para criá-lo e sustentá-lo. O abrigamento foi a solução utilizada para que pudesse receber os cuidados que necessitava e para evitar a situação de risco. Além da baixa condição socioeconômica de seus familiares, sua mãe era alcoólatra e usuária de drogas, não tendo possibilidades de cuidar dele.
Com isto foi recolhido e encaminhado para um abrigo aos dois anos de idade. Nesta época, colocar crianças e adolescentes nestas instituições, se configurava como instrumento de exclusão, visto que funcionava como verdadeiras “prisões” onde todas as atividades e serviços eram desenvolvidos dentro dos muros das entidades – educação, atenção à saúde, lazer (quando existia).
Por alguns anos, A. manteve um convívio bastante tumultuado com as outras crianças. Convivia com crianças ouvintes, não era entendido e ao mesmo tempo não se fazia entender. Sua comunicação era difícil. Também não teve acesso à escola, dificultando o seu desenvolvimento cognitivo, social e linguístico. Aos nove anos começou a ter contato com a Língua de Sinais, com uma professora que se interessou pelo seu desempenho, dando-lhe estímulo para aprender e ir até o máximo que conseguisse, para poder se colocar na sociedade, mesmo tendo suas diferenças, dificuldades e limitações. Este fato facilitou o convívio, o vínculo e a melhora nas relações com as outras pessoas do abrigo.
Ao completar quatorze anos, conta que saiu do abrigo, indo morar nas ruas, tentando reconstruir sua história de vida e assumir sua identidade de homossexual. Atualmente sei que reencontrou uma tia, num bairro da cidade de Viamão, no qual passou a residir. Infelizmente a tia foi presa, deixando-o com a responsabilidade de cuidar de duas crianças pequenas.
A.           é  bastante conhecido em vários bairros da cidade onde vive pedindo doações para o sustento da família.  Com certeza, convive com a dura realidade da prostituição, miséria e descaso social. Na reconstrução de sua história e em suas andanças pelas ruas e sobre a sua vida neste período, ainda continua se deparando com uma sociedade exclusiva e preconceituosa. Relatar esta história e triste realidade produziu em mim, um sentimento de querer saber mais informações e de criar novas possibilidades de pensar sobre os variados desafios que os surdos e ouvintes encontram em suas experiências.
Com isto, a minha busca constante de formação, especialmente na área da surdez, para ampliar conhecimentos e auxiliar crianças/adolescentes em situações semelhantes à de A. Quem sabe, aos poucos, consigamos garantir de fato, o direito desses indivíduos a um desenvolvimento psicossocial em consonância com o Estatuto da Criança e do Adolescente e com uma sociedade inclusiva.

Espero que através deste curso, possamos compartilhar nossas experiências e assim contribuir para a construção de uma sociedade mais justa. 

Um abraço e até breve!
Rosi.

De Elisabete Magalhães para Rosi - 2ª Carta

Olá colega Rosi! Ainda não nos apresentamos formalmente, mas já sabemos que temos algo em comum: memórias de experiências com alunos Surdos que nos motivaram a estar inscritas neste curso. Destas memórias trago hoje a narrativa de uma aluna que reside em abrigo desde 2002 e que chegou a nossa Escola em 2005, aos 14 anos de idade, para cursar uma 4ª série do Ensino Fundamental. Para preservar a identidade da menina, vou nesta narrativa chamá-la de Maria.
Maria nasceu em 1991 e a aos três anos de idade apresentou uma perda auditiva profunda bilateral causada por meningite. Dos dois aos sete anos esteve aos cuidados de um tio; aos sete anos voltou para os cuidados da mãe, pois o tio alegou não ter condições para manter a menina. Por negligência e maus tratos da mãe, Maria foi encaminhada para um abrigo em 2002.
Maria não é protetizada e ao ingressar numa Escola Estadual com classe especial para Surdos, aos 13 anos, comunicava-se apenas por gestos. Apresentava dificuldade para comunicar-se com os professores e colegas e mostrava-se ansiosa e insegura no período de adaptação e aquisição da Língua de Sinais. No abrigo, Maria tinha contato com um menino surdo, também abrigado, que morava numa outra casa situada no mesmo terreno da sua casa.
Em 2005, com o fechamento da classe especial na Escola Estadual, Maria foi encaminhada para a escola onde trabalho. No primeiro contato, recusou-se a participar da entrevista e avaliação - estava contrariada com mais essa mudança em sua vida e queria estar com suas colegas que foram encaminhadas para outra escola de Surdos. Conhecendo sua história me dei conta de quantas mudanças aconteceram nessa pequena trajetória de vida, marcadas sempre pelo silêncio, pela falta de comunicação e pelo pouco (ou nenhum) entendimento dos fatos que marcavam profundamente a sua vida. Como poderia aceitar pacificamente mais uma mudança que a afastava de pessoas com quem queria estar, mesmo que esse vínculo afetivo fosse ainda muito frágil?... esse e muitos outros questionamentos trouxeram inquietações ao grupo de profissionais da nossa escola.
Na entrevista com a responsável pela casa que abrigava Maria soubemos que a menina chegou em 2003 ao abrigo de Porto Alegre (anteriormente estava num abrigo da região metropolitana) e que apresentava sintomas depressivos como agressividade e isolamento. Mostrava-se intolerante quando contrariada e não conseguia expressar seus sentimentos. Nos primeiros dias de aula observamos que a menina tinha um conhecimento restrito da LIBRAS que também limitava o seu acesso aos conhecimentos formais das diferentes áreas do conhecimento. Daí decorre a dificuldade da linguagem compreensiva e expressiva na Língua de Sinais, bem como uma defasagem cognitiva também justificada pela ausência de estímulo apropriado na infância.
Ao longo de 2005 Maria foi apropriando-se lentamente da LIBRAS, adaptando-se à nova organização escolar e estabelecendo vínculos com alguns colegas. Mantinha ainda o comportamento intolerante quando contrariada e, em muitas ocasiões, isolava-se do grupo de colegas. Mostrava-se resistente às atividades que envolviam a Língua Portuguesa escrita e, muitas vezes, recusava-se a realizá-las. Foi encaminhada para atendimentos de fonoaudiologia e psicologia. Em 2006 já podíamos observar uma maior habilidade ao comunicar-se plenamente com a utilização da LIBRAS. Estava bem adaptada à rotina da escola, aos novos colegas e demais profissionais da escola. Também demonstrava maior disponibilidade às interações e intervenções pedagógicas; mas ainda mostrava-se intolerante ao ser contrariada.
Maria participou de um Projeto Educativo de Inserção ao Mundo do Trabalho com geração de renda, oferecido por um programa de parceria entre a nossa escola e outra instituição. Participavam desse projeto adolescentes surdos e ouvintes em vulnerabilidade social, numa proposta inclusiva. Fazia parte do programa a aula de LIBRAS para os ouvintes e a presença de um intérprete para todas as atividades previstas. Podemos afirmar, com certeza, que a participação nesse projeto trouxe mudanças significativas, tanto no aspecto cognitivo, como no aspecto psicossocial e afetivo, para a vida da Maria. Observamos uma modificação positiva da sua autoestima, autonomia e, principalmente, nas relações afetivas que estabelecia com outras pessoas.
Hoje Maria está mais alegre, segura, adapta-se com facilidade aos novos espaços, relaciona-se de forma afetiva com seus amigos, expressa-se com maior fluência na Língua de Sinais e está avançando em relação aos conhecimentos formais. Está menos resistente às atividades de leitura e escrita da Língua Portuguesa e desenvolve de forma satisfatória a área lógico-matemática. É organizada, responsável e participa com interesse de todas as atividades da escola. Com apoio de seus cuidadores e dos profissionais da escola, Maria está mudando o “curso da sua história”, conquistando espaços significativos para a construção do seu futuro.
Entretanto, algumas questões ainda nos preocupam em relação ao futuro de Maria e de tantas outras crianças e adolescentes Surdos que se encontram abrigados: como se dará o desligamento de Maria do abrigo?... para onde irá?...quem acompanhará essa nova trajetória?... e que implicações essa nova mudança trará para a vida dessa adolescente?...Ainda não encontramos respostas que acalmem nossas inquietações. Conhecemos outros adolescentes que passaram pela mesma situação, mas sabemos que o desligamento não foi realizado de forma positiva.
Essa situação sempre está presente em nossas discussões, sabemos que precisamos participar de alguma forma desse processo mas ainda não sabemos como. Nos preocupa a forma como crianças e adolescentes Surdos são encaminhados para a abrigagem, pois não há formação para os profissionais que os recebem, nem para os monitores que lidam com eles diariamente – falta comunicação e um olhar diferenciado para essas crianças e adolescentes cujas carências ultrapassam os limites da afetividade.
Espero que essa minha narrativa possa contribuir de alguma forma para a sua caminhada na Educação de Surdos.

Um abraço...

                               Elisabete Magalhães – 14/09/2011


De Kelli para Renata - 2ª Carta

 
Querida Renata, infelizmente não conheço nenhuma história verídica de surdos que foram deixados em abrigos para lhe contar em detalhes, mas posso lhe garantir que isso me incomoda, isso para não dizer revolta.
Gostaria de dizer que não existem histórias assim, e tal escrita é complicada por não haver onde e nem o que pesquisar, mas no mundo acontecem coisas que muitas vezes nos envergonham. E falo isso não apenas sobre o “desrespeito” que existe com a comunidade surda, mas de várias crueldades que existem no mundo e que nos cercam.
O tema da escrita me fez lembrar um filme que assisti chamado “E Seu Nome é Jonas”, que relata a história de um menino surdo entre 6 e 7 anos de idade que encontra muitas dificuldades no seu convívio social. A primeira foi o fato de ter sido diagnosticado, na época, como retardado mental, e internado por três anos em um hospital psiquiátrico
O filme se passa no final da década de 70, e talvez isso explique a dificuldade dos médicos de diagnosticá-lo como surdo, o que evitaria a sua internação em um hospital psiquiátrico. Jonas era um garoto totalmente comum, gostava do que as outras crianças gostavam, mas nunca era compreendido. A cena mais marcante do filme, na minha opinião é quando o menino sai para a rua à noite e um policial o aborda. Ele, não conseguindo estabelecer uma comunicação com a criança, e por Jonas ficar nervoso, o classifica como retardado mental, e o leva para um hospital psiquiátrico.
Mais uma vez Jonas é vítima da ignorância, não apenas do policial, por não entender a língua de sinais, mas da sociedade da época, que pela falta de sensibilidade em avaliar uma criança nervosa e que não consegue se explicar oralmente é incapaz de conviver em sociedade, restando-lhe apenas a internação psiquiátrica. Para infelicidade do Jonas ele não sabia se comunicar em língua de sinais, pois só começaria a aprendê-la no final do filme.
É através de histórias e reflexões que fazemos a partir de temáticas como esta que podemos analisar de forma crítica a importância da linguagem para um ser humano. Afinal, ouvir e ser ouvido são muito mais que um direito, é o modo ideal para se tentar viver de forma mais igualitária em um mundo onde quem tem voz/sinais tem vez e lugar.

Kelli Cristna Trindade


De Júlia para Fabiane - 2ª Carta

Prezada colega Fabiane,

Alicia Fernández  em O SABER EM JOGO (2001) traz em uma parte do livro o tema do sujeitos de direito X os objetos de tutelagem: Mesmo que o século XX seja chamado de o “século da criança”, o que significou um avanço em relação ao reconhecimento da existência concreta da criança,  ainda temos muito por fazer. As meninas e  os meninos, assim como todas as crianças carentes, marginalizadas e excluídas como pessoas, ainda não adquiriram reconhecimento como tal.”( pag. 95)
O caso que vou te relatar trata de uma pequena parte da história de um menino que trabalhei durante os anos de 2004 a 2006 em uma escola especial da RME de Poa, com alunos surdos que tinham deficiência intelectual. G. foi encaminhado para avaliação em junho de 2004, estava abrigado desde fevereiro de 2003 em uma instituição própria para adolescentes em medida protetiva  entre 14  e 18 anos (menores que haviam cometido infrações mas que podiam ir e vir durante o dia) que ficava vizinha a essa escola. Quando recebi os laudos anteriores (médicos e psicológicos) reconheço que temi pelo que viria: violência, agressividade, surtos, inconstância,... G. vinha de uma família desestruturada: a mãe morreu de câncer enquanto ele era pequeno, o pai tinha problemas com o álcool, o irmão mais velho  sofria de esquizofrenia  e a irmã gêmea (também surda)  havia sido vítima de abuso e G. havia sido considerado o autor.
Quando o aluno chegou para a avaliação vi um gigante, um adolescente alto, forte, pele branca e olhos verdes curiosos. Após o período de avaliação e seminário ele foi encaminhado à matrícula e começou a freqüentar o grupo com outros adolescentes. G. (que havia estudado em escola estadual) foi mostrando quem ele realmente era - bem diferente dos prontuários que li! Ele era adorável, zeloso, sorridente, companheiro, amava ver os pequenos da escola, nunca demonstrou agressividade ou condutas inadequadas.
Durante o percurso escolar, eu não entendia como ele podia estar em um abrigo tão horrendo, sofrendo em ter sua liberdade privada, pois necessitava ficar separado dos outros internos, já que na sua ausência de malícia, foi vítima dentro do próprio abrigo e como medida rápida, vivia isolado para poder ser protegido. Isso foi até reportagem da Zero Hora na época!

A irmã gêmea vivia em um abrigo residencial do Estado: AR ou como chamamos usualmente-casinhas! Elas recebem crianças e adolescentes com ou sem deficiência e tem monitores/cuidadores, que tentam aproximar a vida diária com a de um lar. Não é exatamente o modelo ideal, mas sempre convivi com crianças que moravam nesses abrigos e percebia os cuidados que recebiam.

G. era para estar lá também, era tão vítima quanto a irmã! Os funcionários do abrigo também dividiam conosco a preocupação na sua integridade física e psicológica enquanto vivesse nesse espaço. Não lembro como tudo começou exatamente, mas em 2005 iniciamos um movimento para que ele saísse do abrigo para infratores e fosse recebido no AR que a irmã vivia. As responsáveis por ele na escola anterior (CADEP) também se solidarizaram e fomos montando uma rede: pareceres, documentos, reuniões com o serviço de psicologia do abrigo, juiz da infância e juventude,... Foram alguns meses de muitas tentativas até que G. recebesse o parecer do juiz, baseado em nossas considerações, e se mudar para o AR.
Ele saiu do abrigo em junho de 2005 e durante essa mudança, foi pouco assíduo na escola, teve um período doente, faltou bastante. Cobramos sua freqüência e o responsável nos relatou que ele estava muito frágil mas assim que pudesse ele freqüentaria a escola. Quando ele retornou, foi um choque! G. havia emagrecido, enxergava menos que antes, andava cambaleante, se batia nos móveis, paredes, quase não conseguia comer sozinho... Cada vez mais esse quadro foi se ampliando, a impossibilidade de sair da cama chegou junto com a hospitalização e um tempo depois (maio de 2006) ele faleceu!
Quando recebi a notícia da morte de G., foi inevitável pensar: ele redescobriu sua história e sua existência, foi autor de uma um novo final, se reencontrou com a irmã, teve paz novamente, a muralha gigante que ele era se desfez, e ficou tão leve,  que pode se deixar levar.
Porto Alegre, 12 de setembro de 2011.
Júlia Barreto


De Charlise para Carolina Sperb - 2ª Carta

Porto Alegre, 14 de setembro de 2011.

Querida Carolina Cormelato Sperb, venho por meio desta carta, contar um relato sobre um menino surdo, que viveu em uma casa isolado de tudo e todos, faleceu em agosto de 95.

            M. era uma criança linda, como todos nasceu saudável, mas aos três meses teve uma Paralisia Infantil, onde seus nervos ficaram atrofiado, o rosto deformado e sem escutar, surdo. A Família ficou chocada com o ocorrido, pois não queriam acreditar no que tinha acontecido com o M., era um bebê lindo e saudável, de repente por causa da vacina, aconteceu um desastre.
            Sua mãe não admitia seu filho naquele estado, parou de amamentar deixou atirado (jogado) num quarto, como se fosse um vira lata qualquer, uma criança que nem existisse. Quando íamos visitar a minha tia, quase nunca enxergava o M., ele estava sempre dentro das quatro paredes, só ouvia gritos e choros, escutava um pouco e saía correndo de medo achando ser um monstro.
            Na hora das refeições o M. nunca aparecia, ficava só observando aquela porta, para ver se ela saíra de lá, mas nada. Com o passar do tempo, ao visitar a tia era normal a rotina do M. No ano de 1995, o M. pegou uma forte gripe que resultou em uma pneumonia, não resistiu e veio a falecer em agosto.
            Ao visitar o M. no hospital, fiquei com pouco de receio (medo), só havia visto quando era bebê, ao chegar perto chorei muito, o abracei, fazia carinho, parecia que nem estava ali, pois só dormia, sua mãe  tão desesperada nem chegava perto, acho que era de remorso, por que ninguém o conhecia.
            Quando recebemos a noticia de sua morte, fiquei bem desesperada, chateada, por que ele não poderia ter morrido daquela maneira, sem conhecer as pessoas, o mundo ao seu redor e saber que podia ser amado, ser alguém do jeito dele conquistando o seu espaço.
            Hoje vindo fazer parte deste curso, veio várias cenas de recordação da minha infância, de como poderia ter mudado alguma parte da vida do M., naquela casa isolado, trancado a quatro paredes, sem carinho, amor, integração com todos , natureza,.. , sei o quanto ele sofreu, sem conseguir se comunicar, que vida dura, mas com força de vontade de viver, pois veio a falecer perto de seus 18 anos.
            Por isso venho buscar no curso conhecimentos, vivências, experiências, para melhor conseguir desenvolver e fazer um trabalho de qualidade, fazendo integração, inclusão, pois sei quanto é difícil quando não se tem que de apoio, carinho e saiba compreender o mundo deles (surdo), que é um mundo maravilhoso, uma comunidade amiga, unida, conquistando a cada dia seu espaço na “Comunidade e Mundo”.

Espero que meu relato desta carta tenha contribuído,... Charlise Duarte Garcia, Professora de Educação Infantil.






De Denize para Nelson - 2ª Carta


Olá Nelson:
É um prazer que posso compartilhar uma experiência, a qual me alertou em pensar na problemática de crianças que possuem deficiência e que estejam abrigadas. Este sujeito, quando o conheci tinha 12 anos. Agora tem 15 e encontro com ele em lugares onde a escola proporciona.
O sujeito é um menino. Tem 1 irmão menor e duas irmãs. Ele, mais uma irmã e o irmão são surdos. O único que esta no abrigo é ele. Os outros três estão na casa do avô em condições precárias. Ele, o irmão e a irmã estudam na mesma escola e no mesmo turno.
Este sujeito, que nomearei como Manuel, conhece sua mãe, vamos dizer fisicamente, mas nunca conviveu com ela. É de praxe a mãe ter os filhos e deixa-los na casa do pai. Tanto que uma das irmãs deve estar agora com 1 ano.
Bom o que me chamou atenção neste caso é que Manuel não lida bem com carinho. Quando eu ao interagir com ele era “dura” ele realizava e participava do que era pedido. Há 2 anos, Manuel começou a utilizar a escola para fugir do abrigo, ou seja, não ia à escola nem ficava no abrigo. Quando procurado, estava sempre nas imediações da casa do avô.

Bom analisando a vida deste sujeito percebe-se:

*A duvida porque só ele não pode ficar na casa do avô?
*No abrigo, não havia ninguém que pudesse se comunicar fluentemente com este sujeito
*Alguns objetos e roupas dado pelos professores, sumiam de seu armário.
*Manuel, em alguns momentos narrava à psicóloga, que no abrigo alguns meninos forçavam/obrigavam ele a fazer as tarefas dos mesmos,
*Os monitores compareciam na escola quando solicitados, sempre era um monitor diferente e quando questionado a troca, não sabiam porque, mas ao decorrer da conversa percebia-se a falta de conhecimento da vida do aluno
* Por nossa solicitação, Manuel começou a visitar a família no fim de semana de 15 em 15 dias
*Na escola evitava os irmãos e em alguns momentos debochava dos mesmos.
Bom, pude observar que o Manuel que conheci aos 12 anos e depois quando perdi o contato 2 anos após, estava revoltado e procurava sempre “fugir”, de sua rotina e procurar o que se chama “más companhias”. Quando o sujeito faltava a escola e depois de 2 ou 3 dias retornava com algum objeto novo, já sabíamos que ele havia procurado seus supostos amigos e realizado alguma coisa ilegal, a qual era proibido falar.
Questionava-me o que poderia fazer para ajuda-lo, mas as conversas realizadas, sempre terminavam no mesmo assunto: como e porque ele não podia ficar com o avô?Depois de um tempo utilizava isso para terminar qualquer assunto, visto que percebia o quanto me incomodava o fato de ele ser o único à estar separado da família.
Agora não sei com esta, mas quando o encontro quando tenta conversar esta confuso sua comunicação, não pensa o futuro e ainda se retrai ao receber um beijo ou um abraço. Não sinaliza sobre a família e sinceramente para mim é muito triste ve-lo assim, visto que era um sujeito capaz, mas talvez mal orientado.
Bom, Nelson penso que era isso que tinha para compartilhar. Sei que o relato esta muito superficial e que talvez não atinja o objetivo do encontro, mas me faltam muitos dados e estou impossibilitada por conseguir maiores informações “concretas”, visto que não possuo mais vinculo com a instituição pedagógica e nem com a instituição que o abriga. Espero sinceramente que ele encontre orientação e ajuda para uma vida melhor, mas sinceramente penso que não conseguirá.

Abraços Denize






    
          
           

           









De Adiel para Laura - 2ª Carta

Olá colega,

Escrevo esta carta para lhe contar sobre a situação de escolarização de uma aluna surda institucionalizada (situação de crianças abandonadas, carentes ou infratoras têm ou tiveram uma família sem condições de oferecer um ambiente familiar adequado). Tema que não é novidade e nem desconhecido por nós, mas não é algo que se vê no noticiário e nem num programa de TV. No entanto, estamos diante de um problema social cada vez mais frequente na nossa realidade de inclusão.
Após as apresentações nas últimas aulas, como é de conhecimento, sou professor da rede pública de Manaus/AM, por este motivo lhe contarei a história de uma aluna surda manauara que atualmente “mora” em um orfanato e estuda na escola que eu lecionava, foi quando obtive contato com esta criança, que passarei a relatar brevemente sua situação. Para preservá-la, ao me referir a esta criança, usuremos o nome fictício de “Júlia”.
A Júlia tem hoje dez anos, apresenta perda auditiva bilateral, sem causa diagnosticada, mora no orfanato com 16 crianças ouvintes em seu dormitório. Sabe-se pouco de sua história clínica e psicoemocional pregressa, pois foi recolhida da rua com quatro anos de idade. Como não houve nenhuma notificação de desaparecimento para polícia o serviço social do Estado decidiu e encaminhá-la ao abrigo.
Segundo o relatório do abrigo, a Júlia era agressiva com as demais crianças e com os monitores, chorava muito quando estava sozinha, roubava comida e tentava fugir. Por “não saber falar” as outras crianças não queriam brincar com ela ou interagir em alguma atividade do abrigo.
Após algumas tentativas de escolarização, ela foi passando pelos ciclos de aprendizagem do Sistema Regular de Ensino, o qual a aprovou pelo primeiro e segundo ano sendo retida no terceiro ano do primeiro ciclo, pois nos dois primeiros anos não há reprovação (o primeiro ciclo de aprendizagem é o equivalente a alfabetização, 1ª e 2ª série). Os relatórios das professoras dos anos anteriores a identificava como aluna tímida, retraída, algumas vezes agressiva, sem interação nas atividades de grupo e com habilidade para pintura e atividade de recorte e colagem, sendo que neste período não apresentou desenvolvimento de linguagem escrita e oral, executando as atividades de aula com ajuda.
Apenas este ano de 2011, com dez anos de idade, foi encaminhada para escola específica de alunos surdos, após uma solicitação de sua professora do ano anterior à secretaria de educação.
A Julia chegou à escola com sequelas de uma institucionalização prolongada, mostrando ser uma criança insegura, submissa, sem questionamentos, de pouca iniciativa a conversação e com dificuldade interpessoal. Acredito que o convívio restrito, a rotina de regras, e os castigos sejam o fator primordial do seu atraso linguístico, cognitivo e sócio-afetivo. Ressaltando ainda a falta de um meio comunicativo efetivo (expressão corporal e facial, gestos, Libras).
A Júlia se comunicava basicamente por meio de mimicas e gritos até ser atendida, aos poucos percebe-se o desenvolvimento na sua comunicação com o uso da Libras e interação com as crianças, até os monitores do abrigo relataram seu progresso e sua cobrança para que eles aprendam Libras. Claro que seu potencial está aflorando, mas muitas habilidades ainda precisam ser desenvolvidas, é o começo, não é um “milagre”.
Espero que o tempo perdido sem a Libras e sem o convívio com outras crianças surdas seja superado, para que ela possa descobrir e criar novas possibilidades para sua vida, atuando como cidadã consciente e participativa. Superando os traumas, a restrição social e a pobreza no relacionamento afetivo, que a falta da vida em família traz, limitando a oportunidade de trocas afetivas emocionalmente significativas.
É minha colega, o futuro somente à Deus pertence e a nós foi dado um instrumento que pode fazer a diferença, sabedoria/ aprendizado.
Esta carta é um caso de desrespeito à uma criança, não consegui relatar tudo que ela passou na rua ou no abrigo, mas posso dizer que esta criança sabe o significado de dor, agora ela precisa saber o significado de amor.
Teremos outras oportunidades para conversar, e tenho outras situações de desrespeito à pessoa surda que gostaria de relatar, pois com a Libras pude ser a voz de quem gostaria ser ouvido.

Abraço.
Adiel P. Leão


Publicações do Grupo do Seminário Especial

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Carolina Hessel Silveira

Livros interessantes para a àrea de Educação de Surdos

  • BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. Rio de
  • BHABHA, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
  • EWALD, François. Foucault, a norma e o direito. Lisboa: Veja, 1993.
  • FISCHER, Rosa Bueno. O estatuto pedagógico da mídia: questões de
  • FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 4 ed. São Paulo: Loyola,
  • PORTOCARRERO, Vera. Instituição escolar e normalização em Foucault
  • SILVA, Tomaz Tadeu. O que é, afinal, estudos culturais? Belo Horizonte:

Livros e artigos para a Educação de Surdos

  • KLEIN, Madalena. Diversidade e igualdade de oportunidades: estratégia
  • LANE, Harlan. A máscara da benevolência: a comunidade surda amordaçada. Coleção Horizontes Pedagógicos. Lisboa: Instituto Piaget, 1992.
  • LOPES, Maura Corcini & ACORSI, Roberta. As leituras da diferença na
  • LOPES, Maura Corcini. O direito de aprender na escola de surdos. In: A
  • PADDEN, Carol & HUMPHRIES, O surdo na América: vozes de uma cultura. Cambridge, Massachusetts. London, England: Harvard University Press. 1996.
  • PERLIN, Gládis T.T. Surdos: cultura e pedagogia. In: A invenção da
  • SKLIAR, Carlos (org). A Surdez: um olhar sobre a diferença.
  • SOUZA, Regina Maria de. Que palavra que te falta?
  • THOMA, Adriana da Silva. Entre normais e anormais: invenções que
  • THOMA, Adriana da Silva. LOPES, Maura Corcini (Orgs). A invenção da

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SANTA MARIA - 22 DE NOVEMBRO DE 2008

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